Olá

Estreando no mundo dos blogs.

No mundo da escrita foi em 2009.

Na época, descobrira uma confeitaria peculiar. Uma escada dava para o subsolo. Uma caixinha de música somava-se com a delicadeza da sala. E entre os tijolinhos eu fiz algumas rimas. E sobre uma torta de morango esbocei algum desenho. E de dentro dessa pequena dimensão-outra surgiram poemas. Desde então continuei. Escrevendo para mim mesmo, sempre. Poucos liam e eu também não fazia questão que lessem. Mas agora eu decidi publicar.

Não quero mais guardar meu coração só para mim.

Bem vindos.

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O Dia Que Stewart Morreu

A morte gingou e mandou:

– Stewart, chegou a sua hora!
– Mas tão cedo? Não pode vir noutro dia?
– Amanhã no máximo.

O resto do dia foi horrível. Stewart ligou para seus parentes, avisando que
estava perto do fim. Fizeram as despedidas. Ele passou o dia com sua família e
seus filhos. Tão lindos. E logo seriam orfãos. Não conseguiu nem dormir na
mesma noite. Imaginava como seria morrer.

O dia amanheceu e nada da morte aparecer. Stewart passou o dia aflito. A
qualquer hora poderia bater as botas definitivamente. Procurou se cuidar. Não
saiu de casa. Não fez coisas perigosas. Somente esperou. Nem mesmo ligou a
televisão. Comeu pouco e bebeu quase nada. Recusou até o chá da tarde.

O segundo dia foi confuso. A morte já deveria ter aparecido. Qual seria o
destino de Stewart? Sentiu-se aliviado mas suas mãos ainda tremiam. Não passou
um segundo sequer no escuro. Não foi trabalhar, afinal, iria morrer logo.
Imaginou que a morte estivesse brincando com ele. Divertindo-se de suas
agonias. E ficou com raiva dela. Mas também com medo.

Não era possível entender a morte. No terceiro dia, Stewart estava vivo, mas
suando frio. “A qualquer hora”, ele pensava. Parecia mais que Stewart estava
pregando uma peça das grandes na mulher e nos filhos. Eles ficaram bravos. Mas
felizes por ele estar vivo.

Já nesse ponto, o pai da família também ficara mais tranquilo. Não voltou à sua
rotina, pois ainda tinha medo. Mas pensava que tudo não passara de um sonho
ruim. Pelo visto não morreria mais. Afinal, já haviam se passado quatro dias e
nada da morte dar notícia.

O café da manhã foi reforçado no amanhecer do quinto dia, quando ele voltou ao
trabalho. Os colegas o receberam. Só o chefe olhou torto e perguntou o motivo
das faltas. Ele alegou uma doençazinha qualquer para disfarçar (não contara ao
chefe que morreria). Buscou as crianças na escola e beijou a esposa para que
ela também tivesse uma boa noite de sono. Comemorava quase uma semana sem a
morte.

O sexto dia foi uma festa. A morte já passava longe dos pensamentos de Stewart.
Fizeram uma grande comemoração. Teve música alta, dança e muita comida. Era
final de semana e todos estavam felizes. Dormiu tarde naquele dia, com um
sorriso bobo na cara de quem vencera um grande desafio.

Acordou cedo e sentiu-se diferente. A morte o fitou de cima a baixo.

– Vamos, então?
– Como assim?
– Você finalmente morreu. Já pode me acompanhar.
– Você me deixou ficar mais tempo?
– Digamos que eu me atrasei. Mas não foi por querer.

Se deram as mãos e foram. Ele de pantufas. Ela de havaianas. E no final, depois
de muito perguntar, Stewart entendeu. A morte respondeu que só se atrasara por
que o trânsito de São Paulo, pra variar, estava um inferno.

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Casa

Vou chegar carregado e vai ter alguém pra me demaquilar de um dia inteiro.

Alguém que vai me vestir de beijos e me sonhar em lençois frescos e recém
colocados.

Alguém que vai me acordar aos cabelos e me soprar um hálito quente de
acabei de levantar.

Vou sair de casa levando você em cheiro pelo caminho. Enfrentar o mundo ao
gosto de pão, café e sua pele molhada.

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Perguntas

Eu quero um código. Deve ser bom viver sob um código. Como o juramento de Hipócrates. Tantos códigos existem, porque não um para mim?

Eu quero um mestre. Deve ser bom viver sob a tutela de um mestre. Tantos mestres existem, porque não haveria de existir um para mim?

Eu quero um motivo. Tantos motivos existem, porque meus motivos insistem em não se bastar para mim?

Às vezes o artista que existe aqui dentro me confunde. Ele busca uma razão para existir, quando a arte em si não é necessária. Ela não se preocupa em resolver as necessidades do homem. Convenhamos, a arte não cura os enfermos. Ela talvez piore os sintomas de quem não está pronto para recebê-la. Então porque ela existe? Porque a exercemos?

Acontece que às vezes nós mudamos algumas coisas. Coisas que talvez nem precisassem ser mudadas. Nós não alimentamos ninguém. Nós não construímos pontes. Nós não facilitamos a vida das pessoas. Nós não enriquecemos. Então porque tanto investimento? Porque tanto esforço nesse tipo de atividade? Porque fazemos o que fazemos, artistas? O que nós mudamos?

Eu sei que existe uma resposta linda para tudo isso, e os artistas a conhecem bem. Mas porra, no que ajudamos de verdade? Quem nós conseguimos transformar? E o que conseguimos transformar em alguém? O que acontece com as pessoas que nos falam:

“eu chorei”, ou
“foi um grande tapa na cara”, ou
“isso é arte”, ou
“vocês fazem parte da minha vida”.

O que acontece? Eu preciso de ajuda, porque eu não consigo encontrar a resposta.

O máximo que eu consigo fazer é sorrir com a maior força da minha alma e olhar com os olhos brilhando para outros olhos que também brilham. E ali, entre tropeços e uma voz frágil, de quem teve uma flecha de cupido atravessada no peito, dizer um singelo, comovido e sincero

“muito obrigado”.

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Inspiração

Me veio a ideia, o momento, o calor e o vento
Estava inspirado e tudo fluia.
A luz, o som, na mais perfeita ordem,
Quando um cisco, um quase nada me chama pelas costas.
E de súbito me perco e perco toda a ideia, o momento, o calor e o vento,
a inspiração e a fluidez.
Mutei o som, ceguei a luz, e agora,
longe das árvores e dentro de um ônibus,
me despeço da obra-prima que nunca escrevi

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Jogo da Vida

Se esse mercado capitalista quer nos fazer comprar cada vez mais produtos dele, vamos fugir. Senão eles ganham o jogo. E acaba tudo de vez.

Vamos inverter os papéis, camaradas! Vamos vender tudo de inútil que temos para eles! A roupa que serve, o jeans apertado, quadro emoldurado quebrado mofado! Tudo que não carrega um valor subjetivo inestimável! Tudo que seja verde, laranja, roxo, cores primárias, arco-íris, branco e preto! Tudo de tecnológico e tudo da era das cavernas! Tudo de orgânico (o cabelo, as unhas, saliva)! Tudo de ruim… isso, tudo de ruim… e algumas coisas boas também! Um pente quebrado, rodovia esburacada, prédio abandonado, gaita de fole sem fôlego, pêssego sem caroço, feriado nacional! Empréstimo de banco! Guirlanda de natal! Tudo que nos lembra compromissos, deveres, horários, acordares e embriaguês! O pão, o circo, o gato preto que cruzou a estrada, o mar, a praia, zebra lisinha, égua listrada! O ferro, o fogo, o féu; de fato.

Assim, quando não tivermos mais nada em nossas mãos e corpos, quando sobre nossos ombros não restar nada além dos raios de sol que o cobrem, quando nada realmente for de ninguém e o estado controlar todos os objetos do mundo, ganharemos o jogo.

E o nosso prêmio: olhar cada ser humano na sua essência, completamente nu, desprendido das posses que o poluíam, enquanto o sistema fora soterrado por nosso lixo pessoal.

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Tempo, Pecado, Orgasmo

Eu queria ter um pouco mais de tempo.
Um pouco mais de tempo pra te olhar
Tempo a mais pra te afagar os cabelos
Tempo demais pra te beijar a boca
Tanto tempo assim pra te dar prazer
E todo o tempo do mundo pra te cuidar

Eu pecaria por mais de você

Te engoliria pra dentro de mim
Te tomaria por toda, somente minha
Derramando em você meu desejo
Esbanjando o sabor do teu beijo
Tudo me dá sono se eu não te adoro
E de louco, enraiveço sem teu colo
Pudera eu ser o Sol e queimar tua tez

De todos os pecados, o mais cruel é não te ter

Eu gostaria de mais e mais orgasmo
Sensação assim, de orgasmos sem fim
Orgasmo onde nunca se viu igual
Orgasmo na sua pele virando espasmo
Rios de orgasmo para manter a vida sã
E um último orgasmo em te ver do meu lado pela manhã

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Pedinte

O ônibus demora o olho cerra a cabeça pesa
De canto de ouvido eu escuto uns ruídos
E o pedinte casa queimada duas filhas
Precisa de mais trinta e quatro reais
Tanto espero que já ouvi essa história três vezes
As três vezes não foram iguais

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